sexta-feira, 30 de março de 2012

ARTIGO - PADRE MATIAS SOARES



CELEBRAR A MENTIRA



Num mundo de tantas mentiras, necessitamos celebrar a verdade. O profeta assevera que “assim fala o Senhor: maldito o homem que confia nos mortais” (Jr 17,5). Mas a própria palavra afirma que “lábios mentirosos o Senhor abomina, agradam-lhe os que praticam a verdade” (Pr 12,22). Há de certo modo, uma clarividente afirmação de que a pessoa humana tem esta tendência para negação ou omissão da verdade. Mas, existe um julgamento moral determinado para ser pensada a mentira? Nela existe uma identidade? Se há, então quem a pratica torna-se o que é, ou seja, um nada que se sustenta do nada. Longe de parecer uma elucubração sofismática, este tema pode ser abordado na sociedade Posmoderna como uma das características que dizem como estar a experiência social da Humanidade hodierna.

Com a rápida e frenética valorização dos meios de comunicação, e especificamente, as redes sociais, nos deparamos com a marca globalizada do sentido da verdade. Com estes novos instrumentos, a mentira pode ser muito mais do que realmente é e a verdade muito menos que deveria ser. O conceito de verdade pensado como adequação da realidade ao pensamento estar sendo mais simbólico do que real. O distanciamento gradativo, consciencioso para alguns e alienante para outros, do valor da verdade objetiva, é uma peculiaridade dos novos tempos que pode fazer com que tentemos compreender porque é celebrado um dia da mentira. Esta, analisada com pressupostos morais, está sendo ideologicamente superada; pois a nova ordem sistêmica a cria com a força dos novos areópagos hipermodermos os seus eternos retornos, e por esta mesma estrutura é fortalecida e mantida. A questão do que significa o conceito e a realidade da mentira envolve a condição humana nos vários tipos de relações e que jogos de interesses estão embutidos nas mesmas. Quantas pessoas não mentem para tirar vidas? Mas, outrossim, quantas não mentem para salvá-las? Podemos citar tantos exemplos! As circunstancias é que valoram o julgamento.

Jesus Cristo, vivendo o dilema da sua Paixão, foi indagado, por Pilatos, sobre o que seria a verdade (Jo 18,38). O inquisidor não fora capaz de entender as palavras antes ditas pelo Senhor que havia afirmado: “eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta minha voz” (Jo 18,37). Só em Cristo a verdade tem uma identidade, pois se identifica com a própria pessoa, pois ele não pecou (Hb 4,15). Ele não cedeu às tentações do Pai da mentira (Mt 4,1-9; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13; Jo 8,44). A mentira leva o homem ao pecado, que o conduz à morte por afastá-lo da comunhão com a verdade (Gn 3,4-5). Pela inconsistência da mentira, ela será, direta ou indiretamente, um sinal da negação daquela verdade que onde está promove a vida, porque é a Vida (Jo 14,6).


A humanidade pode e deve celebrar sempre a verdade. Só ela nos fará livres (Jo 8,32). A melhor escolha que as pessoas podem fazer é viver a verdade. Não negá-la. Sua prática mudaria as relações humanas e globais. A justiça seria desvelada em todos os lugares. A vida teria sua dignidade garantida desde a sua concepção ao seu fim natural. A celebração e a experiência da mentira são a negação destes e outros valores, que mostram que nascemos e vivemos para o que é de Deus. Quanto mais amantes da verdade formos, mas nos tornaremos humanos. Assim o seja!

Pe. Matias Soares

Pároco de São José de Mipibú-RN

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